15/08/2025

Com a força e ancestralidade dos povos e comunidades tradicionais, coletivos, organizações populares, grupos culturais, trabalhadores e trabalhadoras do campo se reuniram em Irecê, na região da Chapada Diamantina, para o Encontro dos Atingidos e Atingidas pelos Projetos de Energia Renovável na Bahia. Realizado nos dias 25 e 26 de julho, a atividade reuniu mais de 150 pessoas e 82 instituições de 28 municípios de diversos territórios do estado para debater os impactos dos projetos, sobretudo de energia eólica e solar, compartilhar experiências e construir saídas coletivas de enfrentamento a esses problemas.
A programação, realizada no campus do Instituto Federal da Bahia (IFBA), contou com debates sobre o panorama do processo de transição energética no Nordeste, em especial na Bahia, e como as comunidades têm sentido o impacto da construção desses megaprojetos nos seus territórios. Além de contratos abusivos, apresentados pelas empresas às comunidades sem o devido diálogo e processo legal, os moradores relatam diversos problemas de saúde física e mental após a instalação das torres de energia eólica e placas de energia solar, bem como a fragilização dos laços comunitários por conta da lógica individualista com que as empresas firmam os acordos com os moradores.

Sarah Payayá, presidente da Associação dos Pequenos Produtores da Chapada (APPC) e integrante do Movimento Associativo Indígena Payayá (MAIP), denuncia que é inaceitável o modo como os empreendimentos se instalam nos territórios, tanto para o meio ambiente quanto para as comunidades.
“Exploram nosso país, exploram nossas riquezas e tiram da gente aquilo que a gente tem de melhor. O que a gente tem de melhor é a nossa natureza. Aí chegam aqui, fazem de qualquer jeito e acham que a gente tem que engolir. Não é assim, não. A gente não aceita, a gente não quer, a gente não aprova. Eles não têm o direito de entrar no nosso território dessa forma. A gente precisa brigar, e brigar de frente”, salienta a trabalhadora rural e cineasta.
Unir forças em defesa do povo e do meio ambiente
O encontro, realizado pelo Movimento dos Atingidos pelas Renováveis (MAR), Gambá e UMBU, contou com apoio do Fundo Casa Socioambiental e do Instituto Clima e Sociedade. Para Edimário Machado, coordenador da União Municipal em Benefício de Uibaí (UMBU), a atividade teve um caráter estratégico por possibilitar a reunião de pessoas de diferentes territórios que lidam com problemas semelhantes.
“Acho que o encontro estadual foi muito importante por duas razões. A primeira foi porque permitiu uma interação entre comunidades importantes aqui da Bahia, do ponto de vista do impacto que estão sofrendo desses empreendimentos de energia renovável. Ou seja, essas comunidades estão sofrendo do mesmo problema, mas não tinham uma comunicação entre si. Então o encontro permitiu que as pessoas se conhecessem e que passassem, inclusive, a conversar, a trocar ideia, que era um dos objetivos. E segundo, é que esse conhecimento, essa possibilidade de interagir umas com as outras, fortalece bastante as pessoas que, em determinadas situações, se sentiam isoladas e enfraquecidas”, salienta.

Esse é também o sentimento de Andreza Barreto, do Movimento Salve as Serras (SAS). “Me emocionei várias vezes durante o encontro quando vi tantos sertanejos e sertanejas reunidas com o mesmo propósito. Me senti reconfortada quando constatei que não é uma luta solitária. O evento cumpriu os objetivos de relatar experiências sobre os impactos negativos da produção de energia a partir de fonte eólica no sertão baiano, traçar estratégias de enfrentamento, reforçar a articulação em rede e estruturar a representação simbólica do MAR/BA”, destaca.
Articulação nacional
O encontro também foi o momento de organização do Movimento dos Atingidos por Renováveis (MAR) na Bahia. A organização foi lançada oficialmente em maio deste ano no encontro nacional realizado na Paraíba, contando com a presença de uma ampla delegação baiana. No encontro em Irecê, as comunidades e movimentos puderam debater a importância do MAR para o estado e também definir os representantes que irão representar a Bahia na coordenação nacional do movimento.
“Fazer parte de uma rede que proteja o nosso território é algo importante também para os nossos futuros. Lembrando que a gente tem a conexão com os nossos ancestrais, né? Eles trataram desse território com o maior carinho do mundo. E hoje a gente vê toda essa invasão do nosso corpo, mãe-terra”, salienta Sarah, que também se tornou uma das representantes do MAR na Bahia.

“Então o MAR é um porta-voz, é uma fonte de fala, é uma plataforma. É o lugar que a gente pode realmente chegar e dizer, ‘olha, nós estamos vivos, nós estamos atentos, e a gente está vendo tudo o que está acontecendo. Por mais que você não acredite no nosso grito, nós estamos gritando’. E essa é a real importância dessa organização. Porque está juntando gente de todo um território, de toda Bahia, de todo Nordeste, todo Brasil, que vem sofrendo com a exploração das grandes indústrias, das grandes empresas”, completa.
Edimário também destaca a importância de ter uma organização nacional para fazer frente aos megaprojetos de energia renovável.
“O MAR tem um papel, na minha avaliação, não de representação política, mas de encaminhamento de embates no campo político. Eu acho que o papel que o MAR pode exercer vem de preencher uma lacuna que existe hoje. Porque se nós temos um problema que é nacional, que está afetando vários estados da federação, é preciso ter um instrumento de luta que seja nacional, que tenha essa representatividade”, destaca.
Apesar dos imensos desafios, os participantes do encontro saem animados e ainda mais organizados para seguir na luta em defesa de uma transição energética justa, humana e que respeite os direitos das comunidades e o meio ambiente. “Nós viemos aqui para fazer uma revolução, uma revolução de comunidade”, finaliza Sarah.